Jovens de classe média e estudantes de colégios particulares espancaram dois rapazes na Avenida Paulista, por acreditarem que eram homossexuais. A garota do vestido curto saiu da universidade escoltada pela polícia e debaixo de gritos que a chamavam de prostituta. Estudante de direito pede que afoguem os nordestinos de São Paulo. Comentarista de TV catarinense faz apologia à ditadura e diz , indignado, que qualquer miserável hoje pode ter carro.
Percebe-se hoje em todo o Brasil uma forte onda de defesa dos valores conservadores, autoritários, xenófobos e preconceituosos de todo o tipo.
Bem básico, está lá na Wikipédia: Intolerância é uma atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer e respeitar diferenças em crenças e opiniões.
Se fizermos uma reflexão sobre nosso passado histórico vamos compreender que o discurso da superioridade da elite branca em nosso país foi construído desde o início de sua ocupação pelo colonizador europeu, que buscava branquear e melhorar o Brasil, com a vinda de imigrantes brancos e trabalhadores para valorar a formação do povo brasileiro.
Esse discurso teve terreno fértil no seio das famílias conservadoras, ricas, brancas, herdeiras das capitanias hereditárias, oligarcas todo o país, de norte a sul e se perpetuam até hoje. Foi reforçado por movimentos políticos segregacionistas como a escravidão, desde o século XVI, até a ditadura militar e suas atrocidades, onde indivíduos julgam ter o poder de decidir e agir pelos demais. Vejo que é como se sentissem donos das outras pessoas. Como se pudessem fazer tudo, sem julgamento moral que os condene. É a elite que se constrói diferente e convence os demais dessa diferenciação.
Como diria um dos filósofos mais sábios que já conheci, o personagem Chicó da obra de Ariano Suassuna:. Eu, às vezes, chego a pensar que só quem morre completamente é pobre, porque com os ricos a confusão continua por tanto tempo, que chega a parecer que ou eles não morrem direito, ou a morte deles é outra.
Durante muito tempo as classes mais empobrecidas, os negros, os indígenas, as mulheres, os homossexuais foram convencidos que não eram merecedores de reconhecimento enquanto cidadãos.
Há muito pouco tempo a população começa a despertar e perceber que foi enganada. Que somos todos iguais, feitos da mesma matéria. Que essas poucas pessoas não tem o direito de nos dizer quem somos e como temos que agir. Que podemos pensar por nós mesmos e reivindicar nosso espaço, nossos direitos. Lutar por oportunidades com unhas, dentes e suor. Pois sim, somos todos iguais sim. Para aquele filósofo Chicó é a morte que nos iguala: “Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.”
Foi com o fim da ditadura militar no Brasil que os movimentos sociais que lutam pela diversidade e igualdade de oportunidades vêm se organizando politicamente. Aí estão grupos de negros, indígenas, mulheres, operários, gays, mães solteiras, pobres que querem construir sua vida com dignidade ao lado dos demais brasileiros. Nem acima, nem abaixo.
Todos aqueles que foram empurrados à margem da cidadania hoje buscam o direito de ter alimento na mesa, de estudar com qualidade, de ter seu chão e seu teto, ter seu carro, poder comprar uma geladeira nova e viajar nas férias.
Essa tomada de consciência das classes populares, tão recente, é um movimento que percebemos nas ultimas três décadas, e que acontece em toda a Latinoamérica, incentivado pelos governos populares que tentam reparar os prejuízos históricos aos que construíram a história de seus países com trabalho e luta.
E á e tentativa da reparação desses danos que causa essas reações raivosas da elite conservadora, que vemos nos discursos do Prates, nas ações dos adolescentes playboyzinhos, daqueles que queimam índios, agridem gays, subjugam mulheres e trabalhadores.
Por isso acredito que estamos entrando num período onde essa luta vai se fortalecer. De um lado aqueles que conquistam a garantia dos seus direitos a cada dia, e de outro o extremo conservadorismo que cria raízes cada vez mais profundas no terreno do preconceito, da segregação, do apartheid social.
E cabe à cada um de nós não silenciar diante de absurdos como esses. Denunciar, mobilizar, organizar, gritar por justiça e respeito.
Porque para mim o que há de mais revolucionário na humanidade é o RESPEITO.
Abraços, Evelise.